Para quem não sabe, recentemente lancei-me num novo desafio profissional. Há quase três anos numa busca infrutífera por emprego na minha área (Comunicação), resta-me aproveitar os part-times e trabalhinhos que vão surgindo. Neste momento, trabalho em regime de part-time numa livraria, o que tem sido interessante para analisar uma outra perspectiva do mercado literário do qual faço parte.
Numa altura em que já atendo centenas de turistas portugueses que estão pelo Algarve, tenho tido oportunidade de tirar algumas conclusões nada boas. A primeira é que o mercado dos livros está realmente com uma GRAVE crise. O que é normal, uma vez que em alturas de crise económica e financeira as pessoas começam por cortar com os bens culturais. Porém, essa é uma crise que afecta maioritariamente os livros de ficção. Se observarmos os top's de vendas das maiores cadeias de livrarias, percebemos que, ironicamente, os livros mais vendidos estão relacionados com a crise política, económica, financeira, social, etc. Sei que não posso generalizar a situação de uma loja a todo o país, mas certamente que as centenas de livreiros deste país podem confirmar isto. Afinal, são eles o último "anjo da guarda" de um livro antes de ele chegar às mãos do leitor.
Custa-me quando um leitor agarra num livro, muda para uma expressão triste e volta a pousar o livro na prateleira porque quer lê-lo, mas não pode comprá-lo. Não naquele mês. Possivelmente, não nos próximos. Até a mim acontece isso.
Obviamente que o público (e até os autores) não se apercebem, mas tenho a certeza que nos bastidores do mercado literário, editores, distribuidores e livrarias têm tido umas valentes dores de cabeça para tentar superar uma crise que se avizinha duradoura e ainda mais dura do que é agora. É realmente um grande desafio o de quem trabalha no mundo dos livros. Que estratégias e desafios podem as editoras adoptar para se adaptarem a estas mudanças no nosso país se querem que o mercado literário se mantenha vivo e dinâmico como tem sido até agora?
No entanto, a minha maior preocupação é outra: os autores. Onde ficam os autores no meio desta crise? Qual o seu papel? Obviamente que não estou a falar dos gigantes portugueses cujo nome ainda consegue vender mais facilmente que o próprio livro. Estou a falar de autores que, tal como eu, não têm uma poderosa máquina de marketing por trás e que se debatem diariamente para dar a conhecer os seus trabalhos, para estar a par dos seus desafios, para divulgar as obras na web e em eventos literários, tudo para no final do dia perceberem que as coisas não estão nada, nada fáceis e que os obstáculos são mais que muitos.
Sinceramente, esse é um problema para o qual não vejo uma solução imediata. E digo-o enquanto autor, leitor e, agora, livreiro. Talvez fosse uma boa altura para pôr de lado divergências, discussões, competições e afins e propor mais espírito de união entre autores, editores, tradutores, livreiros, etc. para tentar superer os efeitos nefastos da crise. Tudo para e pelos livros e autores nacionais.
Ou então a minha utopia é grande demais para um pequeno país que se está a fechar sobre si próprio...